domingo, fevereiro 17, 2008

Tarrafal revisitado

Dislates de imprensa (7) (Opressão socialista 29)

“O campo do Tarrafal … feito à medida e inspiração dos campos de extermínio nazis….”

in Expresso (Cartaz), 27/10/2007

Isto vem a propósito de um documentário recentemente exibido na RTP2. A Colónia Penal do Tarrafal situava-se em Cabo Verde e foi o local onde estiveram algumas dezenas de presos políticos entre 1936 e 1954. Destes 36 morreram por doença. Sendo opositores ao regime, e estando sitiados a muitos quilómetros de distância de Lisboa, não houve grande preocupação em mantê-los vivos. Na falta de melhor foi eleito pela propaganda anti-salazarista como a vergonha do regime, o exemplo acabado da sua natureza “fascista” e ditatorial. Que não fiquem duvidas. Salazar foi um ditador e como tal pouco se importou com os prisioneiros no Tarrafal, mortos ou vivos. E também não se duvide que as famílias dos que por lá passaram muito sofreram.

Mas deixemo-nos de lérias. O que se passou no Tarrafal não foi pior (foi menos mau) do que a prática de alguns países democráticos europeus relativamente aos seus presos desterrados. França tinha campos bem piores na Argélia, como o de El Biar, onde já depois do encerramento do Tarrafal se continuavam a praticar torturas bárbaras e se mataram largas centenas de pessoas (a grande maioria argelinos mas também franceses). E claro que nem vale a pena falar sobre aqueles países não democráticos que muitas vezes servem de sociedade ideal para os que mais frequentemente apontam o Tarrafal como um exemplo de singular barbaridade. O erro que foi o Tarrafal deve ser recordado mas na sua verdadeira dimensão. A associação aos campos de extermínio nazis é não só historicamente errada, pois o Tarrafal foi criado primeiro, como demonstra o clima cultural opressor que se vive no Portugal democrático do século XXI e que 30 anos de pós-25 de Abril ainda não conseguiram eliminar. Bem pelo contrário, vieram libertar para uma liberdade condicionada.

19 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Uma coisa e repor a verdade historica outra completamente diferente e eufemizar a Historia sob o pretexto de repor a sua verdade. Nao gosto do estilo do seu texto. Atentados aos direitos humanos nao se comparam, condenam-
-se por igual...entre o seu "deixemo-nos de lerias" e o exagero historico do documentario prefiro o segundo porque, pelo menos, assegura que a memoria nao se perde... afinal entre as vidas que se matam e as que se deixam morrer nao consigo escolher. Miguel Pimentel

2/17/2008 8:50 da tarde  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Agradeço o seu comentário. Está no pleno direito de não gostar do meu texto. Aliás, não escrevo preocupado com a reacção e os gostos das pessoas.

Mas se costuma ler os meus textos, e se reparar porque é que aparece "opressão socialista" em cima, sabe porque é que os escrevo. Porque na sociedade portuguesa, e não só, predomina a desonestidade quando se abordam estes temas. Comparar o Tarrafal aos campos de extermínio nazis, como o Expresso fez, é apenas mais um exemplo do que digo.

Mas para além disso, se procurar bem vai ver que consegue encontrar diferença entre matar pessoas e deixá-las morrer. Basta perguntar aos cerca de 30 que estiveram no Tarrafal e regressaram vivos a Portugal.

2/17/2008 9:47 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Caro Ricardo,

Obrigado pela sua resposta. Sinceramente, interpretei os textos e graficos que li sob essa epigrafe como de oposicao a politica do governo. Ha-de reparar que nao disse que nao gostava do seu texto mas, antes, que nao gostava do estilo do seu texto, pelas razoes que procurarei clarificar. Se se refere a alguns "complexos" pos 25 de Abril ainda latentes na sociedade portuguesa sou levado a concordar consigo. Falo da dificuldade em relacao ao exercidio da autoridade (nao so nas ruas mas, por exemplo, na escola), da obsessao anti-clerical, da dificuldade em construir uma relacao equilibrada com as ex-colonias ou da regulacao da actividade da comunicacao social. Nao lhes chamo desonestidades mas memoria de uma geracao (a qual nao pertenco) que ainda esta viva e activa na nossa sociedade. O Tarrafal (como a censura entre outros) ainda que distante dos campos da morte de Hitler, faz parte de um passado recente que nos envergonha. Acho, por isso, que e preciso ter cuidado na abordagem deste tema para que a memoria nao se perca por entre as malhas do desagravo historico-comparativo. Cumprimentos. Miguel Pimentel

PS: Acho que faz bem em nao escrever para as "sondagens".

2/17/2008 11:43 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A questão é bastante mais simples.
Por que raio de artimanhas o Estado Novo porporcionou que os criminosos internados no Tarrafal tivessem boa vida - pagamdo-lhes bem, como todos sabemos - e, ainda por cima, deixando-os sair de lá vivinhos da costa.
A memória só nos lembra gente de muito má qualidade que é, na sua imensa maioria, causadora dos gravíssimos problemas de que Portugal sofre.
E recorda-nos também o que era prática de regimes, como o soviético. Esses sim, intencionalmente, queriam destruir, matando sem "escândalo de maior, quem defendia a liberdade dos seus povos.
Há uma data de gente que veste os fatos do avesso...
.

2/18/2008 7:16 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Acho espantoso que se distingam atentados aos direitos humanos em funcao da ideologia... como se houvessem barbaridades boas e barbaridades mas... quanto ao dinheiro de que fala, nao, nao sei do que esta a falar mas sobre isso digo-lhe o seguinte: nao ha dinheiro que pague as atrocidades (boas ou mas, mais ou menos grave) que se cometiam no Tarrafal. Mais, nao me parece que alguma vez alguem tenha ousado dizer aos seus sobreviventes: "eh pah, tiveste sorte podias ter ido para Auscwitz ou para um campo na Siberia mas afinal foste para um campo p'ra meninos apanhar sol". Cumprimentos Miguel Pimentel

2/18/2008 8:53 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Estranhamente, no comentario anterior, o meu computador suprimiu os vocabulos "sido feitas" a seguir a palavra houvessem pelo que, ainda que tardando alguns minutos, aqui fica o acrescento! Miguel Pimentel

2/18/2008 9:29 da manhã  
Blogger jorge lima said...

Caro Amigo Ricardo

Estou siderado e desolado com o teu texto, particularmente por não o esperar vindo de ti. Sabes como concordo contigo relativamente à dominação socialista de que padecemos, poderosa, porque de aparência soft. Mas ela combate-se com a verdade, não com relativismos do género «Houve países democráticos que torturaram mais que a ditadura do Salazar.» Tortura é tortura é tortura é tortura. Está mais que comprovado que no Tarrafal houve tortura e os que lá morreram, por poucos que tenham sido, e um só já é de mais, não morreram de constipação.
A minha palavra para ti: deixa-te de lérias.

2/18/2008 9:36 da manhã  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Jorge,

Tenho pena que fiques siderado e desolado mas, se quiseres considerar os factos e não a lavagem ao cérebro que há anos se anda a fazer, verificarás que a frase não é nenhum relativismo. O Tarrafal começou na década de 1930. Após esta data quantos foram mortos pelos franceses na Argélia? pelos ingleses na India, quantos aborígenes mataram e torturaram os australianos, quantos norte-americanos no Sul do país eram ainda escravos? Que experiências de manipulação genética fizeram os suecos até aos anos 50, esse grandes sociais democratas, que resultaram na morte e limitação de seres humanos? Já nem falo em Espanha ou Itália, países que estão mais próximos.

Tudo isto desculpa o Tarrafal? Não, nem o relativiza. Coloca-o em perspectiva. Mesmo que essa perspectiva não te agrade a ti ou a outros. Mas é a real e não devemos perde-la.

Tortura é tortura, e deve ser condenado como tal. Mas não é queimar pessoas vivas em escala industrial COMO INSINUA O EXPRESSO NO ANO DE 2007. E ponho em maiusculas para que se veja bem. Aliás, se falamos de tortura não é necessário irmos para o Tarrafal, basta ficarmos por Lisboa, nos escritórios da PIDE.

Mas tudo isto já é muito sabido e dito atè á exaustão. Devemos esquecer ou apagar? Não. Devemos dramatizar para disso tirar proveito? Também não. Mas é isso que se tem feito nos últimos 30 anos. Chegou á altura de acabar com essa chantagem psicológica. È só isto que eu quero e foi isto que me motivou a escrever o texto. Por isso não tens razão para ficar siderado ou desolado.

2/18/2008 10:39 da manhã  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Caro Miguel Pimentel,

Eu compreendo que refira a memória de uma geração que ainda viveu esse período. Mas repare que essa geração já é muito reduzida, pois o Tarrafal terminou nos anos 1950. Aliás, se reparar bem, eu nunca critico no meu texto o documentário da RTP.

O problema é que quem fala mais do Tarrafal não são os que têm memória do que lá se passou, são os oportunistas de que disso querem tirar alguma vantagem. E isto é uma desonestidade.

Já não compreendo que me refira como compreensível, e não desonesta, a regulação da comunicação social. Se há erro que se deve apontar ao Estado Novo é a censura que exerceu. Por isso, não pode ser por causa dessa memória que se justifica a censura que ainda hoje é exercida na RTP. Já nem falo do Saramago no DN. Mas o próprio Soares reconheceu que, quando esteve no governo tinha a preocupação de controlar o funcionamento da RTP. Usava um tal Arons de Carvalho, que prestou esse serviço durante muitos anos. Isto também é uma desonestidade.

2/18/2008 10:47 da manhã  
Blogger jorge lima said...

Bom, a tua resposta esclarece o que no post me parecia ambíguo. Não sinto que a questão do Tarrafal tenha sido empolada. Sei que quando se fala da Guerra Civil Espanhola nunca se fala das vítimas da República, muito antes de o Franco pegar em armas. Nem dos desmandos da República do Afonso Costa. Nem dos milhares de vítimas da descolonização exemplar. Mas a bem da verdade deve denunciar-se igualmente a tentativa de afirmar que as vítimas da PIDE foram uns quantos que não sabiam estar sossegados. Põr em perspectiva e denunciar a intoxicação promovida pela esquerda é uma coisa. Relativizar o tratamento dado pela ditadura aos presos políticos é outra.
Quanto mais não seja, porque quem não é de esquerda deve dar-se ao respeito, para poder reivindicar autoridade moral.

2/18/2008 10:53 da manhã  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Jorge, se leres o meu texto com cuidado julgo que facilmente se percebe que todo o raciocinio está orientado para a critica da opressão socialista. Eu tive o cuidade de explicitar bem que Salazer era um ditador e que os presos foram deixados morrer. Mas infelizmente vivemos neste clima.

2/18/2008 11:29 da manhã  
Blogger jorge lima said...

Continuas portanto a achar que os presos foram deixados morrer. Não lhes entalavam a roupinha da cama, presumo? Ou seria a «frigideira» que tinha correntes de ar?

2/18/2008 12:19 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

ninguém fala nos gulags
falta pouco para o actual nacional-socialismo nos fornecer aqueles famosos campos com a inscrição
arbeit macht frei
heil hitlerzinho do largo dos ratos

2/18/2008 12:32 da tarde  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Foram deixados morrer a pouco e pouco. O que para o efeito é indiferente.

2/18/2008 1:11 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Caro Ricardo,

Falei em regular a actividade da comunicacao social e nao em controlar a comunicacao social. A ultima e condenavel por anti-democratica (e quantos governantes escaparam a tentacao de o fazer? Nao me lembro de nenhum), a primeira e necessaria em qualquer sociedade civilizada. Quanto a sua obsessao pela opressao socialista creio que o nosso pais se debate com questoes muito mais urgentes do que essa, porquanto creio que exagera nas suas palavras: acaso sabe o que e viver oprimido? Para alem disso, peco-lhe que defina o que significa socialista nestes contexto, pois nao se percebe se se esta a limitar a desferir ataques contra a actual maioria parlamentar ou se tem por objectivo uma analise mais profunda (e interessante) da sociedade portuguesa. PS: Em qualquer dos casos e OBVIO que interessa saber o que sucedeu no Tarrafal, e fulcral que fique documentado, para que nao se repita! Miguel Pimentel

2/18/2008 4:34 da tarde  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Miguel Pimentel,

Quando refiro opressão socialista não me refiro só á actual maioria parlamentar. A opressão é cultural e social, não é a opressão que se sentia no Estado Novo e que se traduzia, por exemplo, numa censura organizada. A opressão que vivemos resulta das ideias que se instalaram na nossa sociedades e foram propagadas pelo PSD e tudo o que está á sua esquerda. È uma opressão silenciosa, não organizada formalmente, e por isso mais difícil de combater e denunciar. Mas é esta opressão que impede a resolução dos problemas mais urgentes que refere. Esta opressão é representada pelos partidos que estiveram no poder e não foram capazes de reformar o país, antes optaram por se alhear das responsabilidades para os quais foram eleitos paassando-as para Bruxelas. Por isso, é minha opinião, e não digo que estou 100% certo, que primeiro temos de resolver o problema da opressão socialista para depois se puderem resolver os problemas do país. Resolver o problema da opressão socialista significa reformar a mentalidade e a cultura social que impregna os portugueses. Não significa fazer nenhum golpe de estado e acabar com a democracia, note bem. Com o que tivemos até aqui, e muito menos com o que temos agora, não vamos lá.

2/18/2008 5:23 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

jorge lima disse...
at 2/18/2008 10:53 AM

...Nem dos milhares de vítimas da descolonização exemplar...

Os tais milhares de vítimas aconteceram depois de entregar, sem qualquer acordo do nosso Povo, aos movimentos independentistas que existiam. Então, sim, iniciaram-se guerras fratricidas que causaram muitas mortes - milhões - e miséria cuja causa foi a politiquice louca da abrilada.
Quem contesta?
(Com pontinho.)
.

2/19/2008 7:53 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Ao contrário do que alguém diz acima, é fundamental fazer um "golpe de estado" e acabar com este estado de coisas.
Vivemos uma mentira desde a abrilada em 1974 e as suas consequências estão bem patentes, sobretudo com a miséria, generalizada - quero dizer, sobre todos os aspectos -, que se instalou e grassa no Povo.
Esta é uma opinião que se pode recolher por toda a parte. É só inquirir o Zé Povo nas tascas, desde as mais humildes.
No fim das conversas, as perguntas que quedam sem resposta são: pois, mas quem o vai fazer, com quem e quem vai pôr o guizo ao gato.
(Com pontinho.)
.

2/19/2008 8:08 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Era interessante fazer um relatório sobre o Tarrafal...
(Com pontinho.)
.

2/19/2008 8:10 da manhã  

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