terça-feira, fevereiro 05, 2008

Das limitações do mercado

É princípio de fé da economia neoliberal que o mercado tudo resolve e leva as pessoas a tomar as decisões mais racionais e acertadas para o seu interesse individual, conduzindo assim ao bem geral da população.

Em nenhum lado esse principio parece ser mais desmentido do que na procura de cursos do ensino superior.

Andámos anos e anos a formar professores, especialistas de comunicação social, historiadores de arte, filósofos, juristas e outros candidatos a desempregados, enquanto o país sofre um défice crónico de engenheiros clássicos (civis, mecânicos, electrotécnicos químicos, etc), de médicos, de enfermeiros e de cientistas (físicos, químicos, geólogos, etc).

Abriram-se as licenciaturas mais disparatadas que formaram diplomados que ninguém percebia para o que é que serviam.
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O governo prepara-se agora para começar a pôr ordem na casa, mas fá-lo da pior maneira. O critério não é aquele que se poderia esperar: encerrar cursos que não têm emprego. Na verdade, só muito timidamente se começaram recentemente a efectuar estudos de empregabilidade dos cursos e esses estudos são da iniciativas das próprias faculdades. De facto, o critério escolhido é o do encerramento de cursos que têm menos de 20 alunos.

O critério poderia fazer sentido se, de facto, os cursos que têm poucos alunos fossem os que não têm perspectiva de emprego. Infelizmente, ao contrário do que diriam as leis do mercado, esses continuam cheios ou perto disso. Os cursos que estão vazios são cursos como física, química, diversas engenharias, geologia. São cursos que tradicionalmente sempre formaram fornadas reduzidas de diplomados. São, no entanto, ocupações estratégicas no seio do tecido económico. São esses profissionais que efectuam estudos geológicos, estudos de protecção radiológica, estudos de análise química. Apesar do seu número reduzido, a sua procura é constante, não se conhecendo casos de desemprego entre essas licenciaturas.

Mas a operação de razia vai mais longe. O governo convida as universidades a despedir s corpos docentes associados a essas licenciaturas. Ou seja, convida as universidades a reduzir fortemente as suas componentes de física, de química, de geologia e de outras ciências de base, que têm dado provas de competitividade internacional que estão na base do aumento da produtividade de vários sectores de actividade, com a formação de engenheiros civis, electrotécnicos, mecânicos, químicos, etc. Nenhuma grande universidade do mundo passa sem um departamento de física, de química ou de geologia. São conhecimentos de tal forma básicos que é impensável dispensá-los. Mas é isso que o governo se prepara para fazer com as novas directivas de «racionalização» do ensino superior.

Segue-se, de novo, o princípio de atacar onde é fácil e onde não haverá muita contestação, deixando abertos cursos que só custam dinheiro ao país e às famílias, que não têm emprego mas que são muito populares entre os jovens porque são fáceis e têm requisitos de entrada baixos. Em vez de fomentarmos os jovens a procurar cursos difíceis, com forte componente matemática, de forte impacto económico, deixamo-los escolher alegremente os becos sem saída das suas carreiras, enquanto negamos a hipótese de a nossa nata intelectual frequentar os cursos em que realmente poderiam fazer a diferença.

16 Comments:

Anonymous Anónimo said...

só falta outro maio de 68
infelismente vivemos no pais do
"agarrem-me ou faço uma desgraça"

2/06/2008 6:53 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Para já, até temos um PM canalizador...
Depois, os formados nos últimos quase 35 anos, ou seja, após a canalhada do 25 de Abril, constituem um grupo de ignorantes que até faz aflição.
Portugal, além dos referidos, perdeu qualidade em gente de Filosofia, Letras, Direito e assim por diante.
Por isso, olhando para o Para- Lamento, se vê a bela bosta que lá está. Também, nos mais altos cargos, PM ou PR, não se encontra ninguém capaz.
É uma gaita, não é?

2/06/2008 7:04 da manhã  
Anonymous JDC said...

portugal não perdeu qualidade em gente de filosofia, letras, Direito e assim. O que se passou é que o ensino passou a estar disponivel a muito mais gente o que faz com que o nível médio académico baixa. Não há menos pessoas inteligentes/a saber menos, há é muito mais gente a saber "mais ou menos". Por outro lado, com a abertura das fronteiras houve uma fuga de cérebros, veja-se onde trabalham António Damásio ou o Magueijo...

2/06/2008 11:32 da manhã  
Blogger José Luís Malaquias said...

JDC está coberto de razão.
É claro que é mais fácil manter uma aparência de exigência e rigor no ensino quando este só é frequentado por uma estreita elite socio-cultural e o resto da população se mantém analfabeta a esgravatar uma sobrevivência da terra.
É bem mais difícil manter um nível de exigência alto num sistema de ensino universal onde os alunos provêm de lares onde não há livros e os pais não sabem ler nem escrever. Mas é preciso começar por algum lado.
Também é verdade que, desde a reforma de Roberto Carneiro, se resolveu o problema nivelando todos por baixo, o que não foi bom.
Mas, no geral, o nível cultural médio da população está muito acima do que estava há 30 anos. E os números da produtividade científica e económica aí estão para o demonstrar.
Há ainda muito para andar e alguns sinais são, de facto, preocupantes. Mas só apostando muito mais esforço num ensino, especialmente um ensino científico, de qualidade é que se pode desencravar a roda que ainda vai perra.

2/06/2008 3:41 da tarde  
Anonymous José Maria Einsteino, aluno de licenciatura em Engª Hidráulica aplicada a motores de rega até 5 cv said...

Por acaso alguém se lembra como é que se calcula o volume de um cilindro?

2/06/2008 4:34 da tarde  
Blogger L. Rodrigues said...

pi x r2 x h (pi vezes o quadrado do raio vezes a altura)

2/06/2008 5:27 da tarde  
Anonymous rpa said...

Caro José Luís,

Não sei muito bem o que é a economia neo-liberal mas parece-me mais um desses chavões com que os socialistas caracterizam-se o que não lhes agrada.

O ensino superior é bem um exemplo onde o Estado tem feito asneiras consecutivas. Se há falta de médicos em Portugal não é com certeza por culpa dos privados. Deves conhecer a Un. Vasco da Gama, em Coimbra, que investiu para ter um curso de medicina e nunca foi aprovado.

Se não Saúde o Estado faz muita falta, no ensino superior já há muito que devia ter deixado de ser prestador de serviços e limitar-se a um papel regulador. Como quer exercer todos os papeis em simultâneo, não faz nada bem.

2/06/2008 6:12 da tarde  
Blogger Camarada Choco said...

Divulgação

Um Blog ,dois livros!

www.camaradachoco.blogspot.com

“Camarada Choco”

e

“Camarada Choco 2”
António Miguel Brochado de Miranda
Papiro Editora

Papelaria “Bulhosa” Oeiras Parque, Papelarias “Bulhosa”, FNAC ou www.livrosnet.com

Tema: Haverá uma fronteira entre os Aparafusados e os Desaparafusados?"

Filmes de Apresentação no “Youtube” em “Camarada Choco”

2/06/2008 6:28 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

O malacueco continua a fazer a sua propaganda de esquerdelha da treta e do que se seguiu à abrilada.
O tonto, evitando apelidá-lo de imbecil, está no fôfo e sem saber o mais mínimo do que as universidades despejam anualmente: uma carrada de burros incompetentes para o que quer que seja.
Esquece-se - ou omite deliberadamente - que os actuais professores são fruto da miséria instituida no ensino, de baixo para cima, ou o inverso se ele preferir, e que não têm capacidades adquiridas para alcançar resultados suficientes, ao menos, dos seus discípulos.
Não estou tão certo que, antes da tal abrilada, houvesse dificuldade no acesso ao ensino superior.
Nada impedia os candidatos.
Como eu, muitos tivemos de trabalhar para atingir os nossos objectivos - trabalar no duro, que é coisa que hoje ninguém sabe de todo o que é - e, graças a Deus e ao nosso esforço, conseguimos o que pretendiamos.
Muitos, felizmente com imenso sucesso.
Quer uma lista dos que eu conheço? Se quer, tem que me dar espaço porque são inúmeros, a começar pelos que - muitos são anónimos e estão afastados justamente pela abrilada (como eu) - conseguiram chegar a possições que hoje ninguém atinge.
Certo também que nem sequer isso preocupa os alunos actuais dado o nulo incentivo que o chamado professorado proporciona.
Que tal ir tomar um duche de água fria agora, no inverno, a ver se o mal lhe passa?
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2/07/2008 7:39 da manhã  
Anonymous JDC said...

o anónimo deveria, ao menos identificar-se. Assim corre o risco de passar, sei lá, por reacionário.
"Não estou tão certo que, antes da tal abrilada, houvesse dificuldade no acesso ao ensino superior." Só pode estar na brincadeira... Qual a percentagem de pessoas que acedia ao ensino superior no pré e no pós 25 de Abril??? Quantas pessoas por este país fora nem fizeram a quarta classe porque tinham que ir trabalhar para o campo para ajudar a sustentar a família?? Além disso, ter um curso superior é um investimento do que o país tem que fazer nas pessoas...
E já reparou que no Estado Novo tudo corria tão bem que ninguém necessitou de emigrar para França, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, etc etc, á procura de condições para poder mandar os filhos para a escola?
O pós 25 de Abril conhece muitas dificuldades, muitas coisas foram mal feitas, inclusive o facilitismo com que qualquer pessoa acedeu ao cargo de professor sem ter qualquer formação pedagógica (o que se está a pagar caro agora...). Mas não venha com a história do "antes é que era" para depois vir berrar que os tipos da ASAE são como a PIDE...

2/07/2008 10:42 da manhã  
Anonymous O povo unido jamais será vencido said...

Anónimo de 07.02.08 continue a trabalar no duro para ver se atinge ainda melhores possições.

2/07/2008 10:49 da manhã  
Blogger José Luís Malaquias said...

Ao meu querido anónimo do pontinho, só lhe posso dizer que é uma pena que esse grande "ensino do antigamente" não o tenha ensinado a escrever frases coerentes, a pôr os acentos nas palavras e a respeitar as mais elementares regras de gramática. Isso, é claro, para não falar das mais elementares boas maneiras ao falar entre pessoas civilizadas.

2/07/2008 12:26 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Um tipo que se refere ao blogger José Luís Malaquias nos termos em que o anónimo do pontinho se refere não é uma pessoa civilizada!

2/07/2008 3:21 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Exactamente por isso mando o malacueco vender chaputa para a mãezinha que o pôs.
Com pontinho.
E isto é para ser curto sem ser grosso.
hehehehehehe
.

2/09/2008 8:32 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

A propósito, agora que li o malacueco, acho que o gajo deve ir perguntar aos "profs" do abrilismos por que raio o deixaram tão inculto.
Este malacueco nem me cheira...
É um completo calinas!
(com pontinho)
hahahahahaha
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2/09/2008 8:38 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Quem dá opiniões tão desacertadas sobre o "antigamente" desconhece, de facto, o que se passava. Sendo grave que o faz sem conhecimento e um mínimo de informação.
É verdade que não era fácil o acesso ao ensino superior. No entanto, havia quem quisesse progredir e, para tanto, suou as estopinhas e trabalhou até alcançar o resultado pretendido.
Repito: eu fui um deles.
Por outro lado, encontrávamos um professorado competente e muito interessado no nosso desenvolvimento.
Ganhavam pouco e hoje, sem saber a ponta de um corno, sem preocupações e sem a menor dedicação aos alunos, querem bons vencimentos - a que não têm direito.
Agora, cá fora, e eu, felizmente, não tenho essa chatice - não vivo em Portugal -, temos que escolher os "formados" e aproveitar, a pente fino, a mísera qualidade com que se apresentam como candidatos ao trabalho que se lhes oferece.
Sim, de facto, o ensino era incomparavelmente melhor antes da abrilada. Presentemente, qualquer ignorante entra numa escola superior e sai de lá, se sair, incapaz.
É chato mas é a realidade que temos.
Não tenho o menor problema em passar por reaccionário - até me honra.
Quanto a emigrantes Portugueses, seria bom que houvesse informação sobre o que se passa. É possível que haja mais hoje que no tempo da outra senhora. Porém, todos com um problema: estão mal preparados.
Como me diz um colega e amigo de nome aí em Portugal, sem dúvida que os finalistas do 12º ano são menos qualificados que os dantes tinham apenas a 4ª classe. Os formados, pouco mais sabem. Vêm para aqui e nem como mecânicos arranjam trabalho.
Uma grande chatice, em especial, para eles.

Com pontinho.
.

2/10/2008 7:31 da manhã  

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