sexta-feira, dezembro 28, 2007

ler os nossos

"Os Vendedores de Feira
Estamos já em contagem decrescente para a faustosa comemoração da implantação da República. A avaliar pelo calibre do presidente da respectiva comissão de festas, teremos cerimónias, se não dignas, criativas, prenhes de um oportuno e já bastamente ensaiado revisionismo. Para esse peditório, pelo menos eu, não contribuo.
Uma clique instalada, dona das verdades iluminadas com que se querem ver alumiadas as veredas do poder, insiste em dourar a pílula da República, ignorando (ou escamoteando) o que foi a sua instauração e o que resultou dessa fatídica sublevação. Como é evidente, não estarão isentos de reparo, mesmo à luz da época, os tempos de governação na Monarquia. Reparos que com maior justiça teriam por destinatários os governantes e parlamentares e não tanto a acção régia. Contudo, pretender alicerçar todo um edifício político, que agora se quer com pompa evocar, numa sucessão falaciosa de erros e de mentiras não me parece um bom princípio. Mas isso, para a trupe do costume, é de somenos, e lá vão, do alto de duvidosas cátedras assinalando (sem acerto) os desvarios monárquicos e sublinhando (sem fundamento) as virtudes republicanas.
Uma dessas putativas virtudes é a democracia. Não sei por que bulas, mas o certo é que se anda a espalhar com engenhosa habilidade a insinuação de que foi com a República que se institui o sufrágio universal. Até os escritores da moda e os vendedores de feira são vítimas dessa precipitação. Não fora a sageza de um historiador convertido em crítico literário e talvez só meia dúzia de informados tivesse dado pelo abuso. Vasco Pulido Valente, neste aspecto insuspeito, denuncia com a veemência que se lhe conhece: "A República notoriamente não instituiu o sufrágio universal. A lei eleitoral de 1911 deixava votar os maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou que fossem chefes de família há mais de um ano. Infelizmente, na «eleição» de 1911 não se votou, por pressão do Partido Republicano, em quase metade dos círculos. Pior ainda, nos círculos em que se votou, bandos de terroristas «fiscalizaram» o acto. Na eleição seguinte, em 1913, o Partido Democrático restringiu o voto a maiores de 21 anos, do sexo masculino [ai que diriam, hoje, os fundamentalistas da igualdade de género!] e letrados: um corpo eleitoral mais pequeno que o da Monarquia." Tudo visto e ponderado, nos primeiros tempos, a República não passou de "uma ditadura do Partido Democrático", superiormente orquestrado pela sinistra batuta do Dr. Afonso Costa.
Pretender demonstrar que em Monarquia se vivia sob opressão e que em República se respirava liberdade é tarefa impossível, por ser uma rotunda mentira. A actividade política conhecia antes do 5 de Outubro uma liberdade de opinião, de organização e de acção que só (bem) depois de 1976 se recuperou. E de 1910 a 1976, que eu saiba, estávamos em República. Não havia um Rei para nos amordaçar. Nem Rei, nem roque."
Nuno Pombo, no DD

1 Comments:

Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Bravo Nuno. È a tal opressão socialista que eu tento denunciar há muitos anos. Mas não é só o Presidente da Comissão de Festas que é preocupante. Há outros membros de igual calibre, eg. António Reis, e o programa proposto, que já esteve disponível no "site" do Governo é literalmente de bradar aos Céus. Basta referir que uma das entidades que apresentou inúmeras sugestões foi a tristemente famosa Associação República e Laicidade. Não é preciso dizer mais.

Mas deixo-te uma pergunta: Que vão os monarquicos fazer para impedir que as comemorações se transformem num chorrilho de mentiras? Não és o primeiro monarquico a quem faço esta pergunta e até agora as respostas têm sido nulas. Eu não sou monarquico mas participarei de bom grado em qualquer iniciativa que vise acabar com a "mentira" que é a república.

Um abraço e Bom Ano

1/01/2008 10:08 da tarde  

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