terça-feira, julho 17, 2007

Não Se Prenda Por Mim...


Começo por esclarecer: acredito em geral no livre arbítrio, na liberdade de escolha, na responsabilidade individual. E acredito na punição de quem, no exercício da sua liberdade, decidiu prejudicar o semelhante por actos a que todos decidimos chamar crimes. Por isso, sendo visitador de um hospital-prisão, não abriria, naturalmente, a porta aos reclusos que visito. Procuro, sim, manifestar-lhes a minha solidariedade, sem emitir juízos de valor, e estar ao seu lado no momento de privação - da liberdade, antes de mais, mas privação de muito mais.
Mas agora queria mesmo era falar de responsabilidade social. E colocar uma, chavão, questão fracturante, fechar chavão. Nomeadamente. Qual é a nossa responsabilidade no momento de fraqueza daquela pessoa? Não é uma pergunta habitual na nossa mente arrumadinha de cidadãos exemplares, mas o ponto é: tem ou não cabimento?
Digo que tem. E penso no quão difícil deve ser, quando se nasce no bairro negro, onde não há pão e não há sossego, seguir o caminho dito recto. Ali não há avenidas direitinhas nem mães para nos dizer quando atravessar. Estão no segundo turno da limpeza, no segundo salário mínimo. Que livre arbítrio há aqui? Algum, não duvido, mas quanto? Que decisões rectas e correctas se pode tomar quando o role-model é o dealer? Onde ir buscar exemplos? À televisão? À Grande Mãe do Povo, tornada modelo de rentabilidade pelo conde católico Paes do Amaral que declarava displicentemente que a sua família não via a TV do Papá?
E que faço eu, cidadão exemplar, quando a publicidade garante a crianças meio perdidas que se pode ter tudo já e só pagar depois, pressionando, pressionando sempre, e eu não pressiono ninguém para que se regule este mercado selvagem?
E que faço quando permito que o planeamento urbanístico que não existe e a especulação imobiliária que não desiste divida o mapa em guetos e condomínios fechados?
E que faço quando não faço nada por uma pessoa que pagou a sua dívida e procura trabalho?
E que faço quando o legislador pouco se importa com as condições de vida destes pesos-mortos. eleitoralmente falando, e não descubro maneira de o fazer mudar de ideias?
E que faço quando o meu colega de trabalho diz lá dentro é que eles estão bem, e ainda havia de se deitar fora a chave?
São muitas perguntas. Quem me dera ter uma resposta. Mas agora não consigo pensar no grande quadro. Só penso no mulato de Vale de Judeus, rapper e todo o físico dos presos dos filmes americanos, que está preso desde os 16 por crimes graves - não sei quais, nunca pergunto, mas imagino, já levo uns anitos disto - e cujo pai morreu um dia, lá no bairro da lata, tinha ele quatro anos. A mãe não o podia manter, e aos irmãos. Vendeu-o.

14 Comments:

Blogger José Luís Malaquias said...

Excelente post e muito corajoso.
Poderíamos, talvez, procurar consolo no facto de que, antes de lá chegar, essas pessoas passaram por um sistema de justiça que atendeu aos seus casos, ao seu historial. Mas, deixemo-nos de fantasias. A justiça é tudo menos justa e só defende quem pode pagar bons advogados. Uma presidente da câmara é apanhada com a mão no saco azul. Foge a um mandado de captura e fica a rir-se do outro lado do Atlântico. Depois regressa e não acontece nada? Nem sequer é presa por fugir à justiça? Enquanto isso, uma mulher pobre passa quatro anos na prisão por um fogo posto que não cometeu e que a PJ sabia que não tinha podido cometer?
Para não chegarmos ao exemplo dos EUA que o Jorge mencionou. Para se tornarem "duros" com o crime, adoptaram uma regra do basebol (à terceira falta, sai-se) na justiça que diz que quem for condenado três vezes, nem que seja por roubar chocolates, tem de passar 25 anos na prisão. Há mães a cumprir pena nos EUA porque, desesperadas, foram comprar droga para os filhos, para não os verem sofrer. Enquanto isso, o Vice Presidente e a sua clique, que cometeram o crime de traição por revelarem a identidade de um agente secreto para protegerem a sua mentira, que mentiram aos tribunais, que desafiaram todas as leis para provocar uma guerra de centenas de milhar de mortos, escapam ilesos e o único que é condenado - e apenas por perjúrio - é perdoado pelo presidente.

De facto, os estabelecimentos prisionais não são edifícios de reabilitação e muito menos de justiça. São apenas uma forma conveniente de esconder uma parte da sociedade que preferimos não ver.

7/17/2007 11:28 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Jorge Lima,
O seu trabalho é excelente e revela um quadro surrealista na aparência mas real.
É um daqueles temas em que pensamos todos os dias e para o qual não temos solução, pelo menos, fácil.
É triste, no entanto, que apareçam comentadores, seguramente de mente perturbada, a espalhar a confusão.

...

7/18/2007 7:07 da manhã  
Anonymous LOL said...

Este anónimo dos ... tem uma adoração especial pelo Zé Luís Malaquias. É evidente, não há como negar.
Se fosse mulher, até podia ser que o Zé não ficasse mal na história. Mas desconfio bem, pelo registo com que diariamente nos brinda, que se trata de um homem e bastante mal educado. Zé, desta vez sais no prejuízo!

7/18/2007 9:31 da manhã  
Blogger aviador said...

O Conde Catolico Paes do Amaral é um modelo de pai de família e de gestor. AH e cunhado do Prof.Marcelo.Tranformou a TV Católica na TV Popular.
Um milagre de aggiornamento.
E agoa vai fazer o mesmo a meiaduzia de editoras.
Quanto às tuas reflexões - OK, está bem. Soam a "dejá vue"como diria o Lino,mas às vezes,nos tempos qu correm é bom voltar a elas.

malaaviada.blogspot.cpm

7/18/2007 9:49 da manhã  
Blogger jorge lima said...

Aviador:
Pois, o problema do déjá-vu é o pas-encore-changé. Por isso é que eu volto a elas como o cão às canelas.

Anónimo das 7:07
Lamento desiludi-lo, mas o Zé Luís diz o que deixei por dizer para evitar fazer um testamento. A Justiça em Portugal e em todo o mundo ocidental só é igual no papel (claro, fora do mundo ocidental, nem sequer existe). Eu bem vejo como no hospital-prisão os presos pobres são completamente ignorados pelos advogados oficiosos. E, sim, se eu acredito que os EUA são, tomando a globalidade dos seus 200 anos de vida, um farol para a democracia, a verdade é que ultimamente, e especialmente com esta Administração, são um modelo de podridão em muitos aspectos. E o seu modelo de justiça faz inveja a nossa justiça da Idade Média.
O que me preocupa, precisamente, é que vivemos obcecados por os copiar.

7/18/2007 10:00 da manhã  
Blogger KA said...

Jorge,

Exclente post...mais um. De facto andamos por vezes tão atarefados nas nossas vidinhas confortáveis que nem nos incomodamos com reflexões como a que aqui fizeste.
É-nos mais fácil ignorar para evitarmos o desconforto de saber que temos sorte...sim porque é preciso ter sorte a nascer.
É mais fácil ignorar, não vá dar-nos uma vontade irresistível de ajudar e depois é uma chatice porque temos de gastar o nosso precioso tempo.

Sabes qual é que acho que é um dos problemas principais? É a falta de pensamento num bem comum. As pessoas no geral vivem de uma forma individualista, a olhar só para o umbigo. As atitudes não são tomadas a pensar nas consequências sociais mas sim em proveito próprio. Esta atitude tem como consequência o que tu muito bem escreveste. E o que fazemos? nunca o suficiente.

7/18/2007 10:36 da manhã  
Blogger jorge lima said...

Obrigado, Ka!
Ignorar é humano... mas não ignorar ainda é mais humano... ;-)

7/18/2007 10:59 da manhã  
Anonymous Marta said...

Fico incomodada qaundo me perguntam o que tenho feito para mudar aquilo com que não concordo. Não tenho feito nada. Odeio o urbanismo das nossas cidades, em busca do lucro fácil, odeio o I.R.Yes e todos os outros e só não penso no dito mulato porque não o vejo, nem a ele, nem a mais nenhum nas mesmas condições.

No entanto, não me sinto capaz de fazer alguma coisa sozinha. E mesmo que não estivesse só, aqueles que controlam o estado das coisas têm a força suficiente para impedir as mudanças. Quem se preocupa tem chatices, gasta o seu tempo num ideal e depois corre o risco de não servir para nada.

A minha consciência social perde sempre quando se bate contra o meu sentimento de impotência.

Escreva sobre pinguins, se faz favor.

7/18/2007 3:36 da tarde  
Blogger L. Rodrigues said...

Quando uma das heroínas do século 20 é uma senhora que disse "there is no society", não admira que as coisas venham de mal a pior.

Eu acredito muito pouco no livre arbítrio. Podemos fazer escolhas, claro, mas o nosso leque de escolhas é sempre contextual.

Em cada momento todos fazemos o que nos parece melhor, dentro do quadro de referências que temos, e de acordo com as circunstâncias.

7/18/2007 5:13 da tarde  
Blogger jorge lima said...

Marta:
Tentando, corre realmente o risco de não conseguir nada. Não tentando, não corre o risco de conseguir... Eu vou apostando, apesar de tudo, na primeira hipótese, embora com os mesmos desânimos que menciona...

Luís:
Quem é a tal heroína que disse isso? Quanto ao livre arbítrio, é sempre o velho problema da garrafa meio cheia ou meio vazia, não é? A não ser que estejas a falar de liberdade de arbitragem na Liga... mas isso são outros 500...

7/18/2007 5:34 da tarde  
Blogger L. Rodrigues said...

Jorge: Thatcher

7/19/2007 4:19 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

LOL disse... at 7/18/2007 9:31 AM

...desconfio bem, pelo registo com que diariamente nos brinda, que se trata de um homem e bastante mal educado...

Estou-me completamente nas tintas para a sua apreciação. O meu texto não é incorrecto enquanto o seu, sim, mostra uma evidente rudeza e má educação.
Mas você sabe muito bem o que eu quero que faça e para onde quero que vá.
Ai não que não sabe! Até porque gosta...
Divirta-se e tenha cuidado com a sida!


hehehehehe


...

7/20/2007 6:40 da manhã  
Blogger mafalda said...

Qual a nossa responsabilidade no momento de fraqueza daquela pessoa????Pergunta com todo o cabimento.Que faco eu, cidada exemplar, quando vou pela primeira vez a um centro de saude, cheio de velhotes e muletas, e os vejo horas a espera, muitas vezes a serem acabrunhados pelos funcionarios?E que faco quando sou responsavel por uma seccao de voto e entra um invisual sem declaracao medica e os meus colegas de mesa nao o deixam votar? E quando os meus filhos vao para campos de ferias com meninos de bairros negros e eu fico chateada por se sentarem ao lado dos meus na camioneta? E a escolha das escolas e das turmas?Sao muitas perguntas, caro Jorge, estas talvez ridiculas.Mas confronto-me com elas diariamente e nao encontro respostas.Corro atras delas e acredito que, com o meu esforco,pequeno que e, qualquer coisa, podera fazer a diferenca.
Abraco
ps:Tive que tirar acentuacao, cedilhas e afins.Sorry

7/20/2007 4:38 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Cara Mafalda:

Colocar questões sem encontrar as respostas já é um progresso em relação a quem nem sequer as coloca. Continue inquieta!


JL

7/23/2007 5:47 da tarde  

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