sexta-feira, outubro 20, 2006

Engano

"Se o referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG) até às dez semanas fosse hoje, o "sim" ganharia com 72 por cento dos votos válidos, contra 28 por cento para o "não". Estes seriam os resultados finais da consulta popular, extrapolados a partir da sondagem feita pela Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1.
Mas na sondagem, a intenção directa de voto para o "sim" é de apenas 53 por cento, contra 21 por cento para o "não" e 10 por cento de indecisos. A estes juntam-se ainda 16 por cento de eleitores que não tencionam ir votar. Em termos reais é, pois, reduzida a margem favorável à despenalização da IVG, nas condições previstas no projecto de lei socialista já aprovado no Parlamento - realizar-se até às dez semanas, a pedido da mulher e em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. E é bastante menor do que os resultados obtidos numa sondagem semelhante realizada em Janeiro de 2004 pela Católica, altura em que 69 por cento dos inquiridos diziam claramente "sim" à mesma pergunta. A margem actual favorável à despenalização torna-se ainda mais frágil quando se colocam os inquiridos perante várias situações concretas. Questionados se o aborto devia ser legal "quando a mãe não deseja ter o filho", apenas 29 por cento respondem afirmativamente (em 2004 eram 48 por cento). E apenas 34 por cento aceitam a legalização devido a dificuldades económicas, menos 14 por cento dos que o faziam no inquérito anterior.Posições de total liberalização ou total proibição são, no entanto, minoritárias. Há só 17 por cento dos inquiridos que acham que o aborto devia ser legal em todas as circunstâncias apresentadas, e nove por cento que nenhuma das circunstâncias é motivo suficiente para tornar legal a interrupção da gravidez. Curioso é também notar que 38 por cento dos questionados defendem que tanto a mulher como a pessoa que provoca o aborto ilegal devem ser sujeitas a prisão, mais cinco por cento dos que pensam que nenhuma delas deve ser detida. Quanto ao momento em que começa a vida humana, quase metade dos inquiridos consideram que é na concepção (48 por cento), muito longe dos 15 por cento que defendem que é só a partir do momento em que há actividade cerebral. Ainda assim, há uma tendência maioritária de voto ao "sim" entre os que crêem que a vida humana começa com a concepção (46 por cento). A oportunidade política da discussão do problema e do referendo é aceite por 66 por cento dos inquiridos, uma percentagem muito próxima daqueles que asseguram que irão votar. E uns esmagadores 81 por cento dos inquiridos consideram que uma alteração da lei do aborto tem de passar por um referendo, contra 12 por cento que defendem alteração simples na Assembleia da República. No total, 85 por cento aconselham o Presidente da República a dar seguimento à proposta de referendo, ontem aprovada no Parlamento."
Sem prejuízo de análise mais profunda destes números em local mais apropriado, peço a todos que leiam com atenção esta notícia, nomedamente o que assinalei a negrito.
Resulta daqui que a grande maioria dos inquiridos nesta sondagem não faz a mínima ideia do que se vai votar no referendo.
Com efeito, como é que é possível que apenas 29% e 34&, respectivamente, dos inquiridos aceite o aborto por falta de desejo da mãe em ter o filho e por razões económicas, mas depois mais de 50% das pessoas admite votar "sim" no referendo?
Como é que é possível que apenas 9% dos inquiridos aceite o aborto em qualquer circunstância, mas mais de metade esteja disposto a votar "sim"?
Sob pena de me acusarem de má fé ou cegueira não posso deixar de concluir que a maioria das pessoas não sabe efectivamente qual o sentido da pergunta do referendo. E nessa medida, não posso deixar de dar razão a todos aqueles que pretendiam que a pergunta fosse mais clara e directa. Acredito que tal alteração não fosse do agrado dos partidos que aprovaram o projecto legislativo de ontem (PSD incluído), mas seria bem mais honesto na perspectiva do eleitorado.
A pergunta deveria ser:
Concorda com a liberalização total do aborto quando praticada até às 1o semanas?
Desta forma, o Governo e demais pandilha prepara-se para abusar da iliteracia dos eleitores. Nada a que não estejamos habituados.

1 Comments:

Blogger Pedro Almeida said...

É tão bom seremos inteligentes e literados.
É tão bom sermos superiores à canalha.
São tão burros e estúpidos os Portugueses, esses pobrezinhos, nem sabem interpretar um texto pequenino.
Sou tão inteligente eu, até tenho um blog tudo, tenho que educar o povo ignorante, é a minha obrigação.

ps: as sondagens (lá da feira, era o bem contra o mal) valem o que valem, ou seja...nada mesmo.

10/21/2006 10:43 da manhã  

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