quinta-feira, março 06, 2008

Mistério da Estrada de Cima - Capítulo I, 1.ª parte


Doroteia ali estava. Distante. A singeleza do seu olhar difuso ocultava com dificuldade o turbilhão de emoções dos últimos dias. Nada ficara como dantes. Contemplando a própria desolação interior reconheceu que tinha perdido. Quem sabe se para sempre.

O seu semblante, marcado pela preocupação, revelava agora as rugas que as milagrosas mezinhas de M. Efigénia escondiam. Ninguém na Casa dos Novelões desconfiava sequer da verdadeira razão de evidente consumição.

- Foi assim, exactamente assim, que o Senhor D. Jerónimo, que Deus haja, se deixou arrebatar pela idade que não tinha. Era com máximas destas que Joaquim, hortelão que já fora do avô de Doroteia, conservava a fama de ser o maior filosófilo que Chão de Meninos alguma vez parira.

- Acha mesmo, Sr. Joaquim? Foi assim, especado diante daquela janela? perguntou genuinamente curiosa a Genoveva para quem todo o ar que se respirava nos Novelões carregava o fortíssimo olor da excentricidade.

- Não, pequena! Os lobos não uivam diante de janelas que não deixem ver a lua! disse ele com a bonomia arrastada de quem se sente animado por uma sabedoria muito anterior a si próprio.

- Ai Sr. Joaquim, tenho pavor de bichos. Até os cágados do lago me assustam.

- Não digas disparates, pequena. Não temas animais com carapaça. E ouve o que te digo: o medo, esse sim, é que é uma bicha lãzuda com mais cabeças do que patas.

A rapariga, criada de dentro há menos de quatro meses, desatou a correr, transida. E nem sequer o gritinho agudo com que cortara o silêncio da biblioteca captou a surpresa de Doroteia.


Isílio Verdasca
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