terça-feira, fevereiro 19, 2008

O país (ir)real...

No passado domingo, o círculo de intelectuais do programa "Eixo do Mal" discorreu sobre este conceito, muito na berlinda nos últimos dias pela visita de Santana Lopes ao Portugal Profundo (p.f. não confundir com o blog de estimação do nosso Primeiro-Ministro). Para meu espanto, Clara Ferreira Alves reconheceu que ela, os seus colegas de painel, a classe política de Lisboa, desconheciam o país real...
Ontem, qualquer ser alienígena que "aterrasse" em frente a um televisor sintonizado na SIC depois da 21h, com toda a certeza pensaria que estaria a ouvir um governante de um qualquer país nórdico e não o berço de Luis de Camões...


Ao ouvir o nosso PM discorrer sobre economia, saúde, educação e política em geral (ou lá o que isso é...) somos quase obrigados a beliscarmo-nos para saber se se trata de um sonho ou, por outro lado, ainda não acordámos deste pesadelo comum.

Pois bem, temo mesmo que o "célebre país real" seja já um conceito de ficção: sem escolas, sem unidades de saúde, sem polícia, sem tecido económico, e, devido à crise de vocações na igreja, até sem padres! É apenas uma questão de tempo até que mais de metade de Portugal fique deserto ou sirva como mero depósito de torres eólicas, de campos foto voltaicos, ou de co-financiados elefantes brancos turísticos .

Será que queremos um país com mais de metade da população activa na região da grande Lisboa?
Um país onde o sistema educativo,de ano para ano, nivela por baixo os critérios de exigência aos seus alunos?
Um país onde o estado gasta quase mil milhões de euros em subcontratação de serviços e a despesa primária não desce?
Um país em que grandes obras públicas são decididas e redecididas por sucessivos governos sem coerência?


Portugal é cada vez mais uma miragem: enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Sociedade.

Isto é apenas uma "incontinência verbal"...

JAM

10 Comments:

Blogger Vicissitude(s) said...

"Portugal é cada vez mais uma miragem: enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Sociedade."

Permita-me que acrescente dois pontos.
1ª esta "angústia" só discorre aqui, porque na verdade você sabe que vai ao privado e continua só a miar no blog. Portanto não se faça um "capitão de Abril", porque fazemos parte desta "democracia".

Só digo isto, porque se passarmos em revista um pouco pelo bloguedo Português, não há nenhum que se queixe, mas continua isso mesmo, a simples queixa leviana que não leva a lado nenhum. Acho que tem o efeito contrário ao cair na trivialização de uma opinião que é massaificada mas não surte efeito em nada, serve para conversa de café da manhã de uma minoria que se julga esclarecida.

Desminta?

Há quem ganhe com estes absurdos declarados e nos facilistismos de oposição.


Desculpe a incontinência "verbal".

2/19/2008 12:16 da tarde  
Blogger José Luís Malaquias said...

Ora seja muito bem aparecido, o nosso novo incontinente.
Este post foi uma entrada de leão, bem no espírito dos incontinentes e inconformados que por cá grassam.
Não concordo com o vicissitudes quanto ao perigo da trivialização da queixa, pois há muito quem se queixa e não se conforma mas também age e muda as coisas.
Por isso, também não pinto o retrato tão negro que se costuma pintar neste blogue. Há muita coisa que está mal, mas acho que no compto geral, Portugal tem feito progressos notáveis e está hoje um país muito melhor do que eu conheci quando comecei a ver o mundo.
Quanto à desertificação do país, tomara eu. Se essa desertificação implicar que os abortos arquitectónicos que se espalharam pelo território como cogumentos acabem por cair de podres, por falta de manutenção, venha de lá essa desertificação. Prefiro ver o país entregue às urtigas do que às casas horríveis que se espalharam por cada canto do país, sem qualquer espécie de plano ou ordenamento.

2/19/2008 1:55 da tarde  
Anonymous rpa said...

Seja bem vindo novo incontinente. Entrou com o pé direito.

2/19/2008 2:13 da tarde  
Blogger Vicissitude(s) said...

Ah, mudar mudam, mas é de "opinião".
Quanto aos progressos é notório, mas não é o suficiente. Liberdade? só de especulação.
Quanto ao retrato negro compreendeu-me e eu também o(s) compreendo.

Quanto ao "inconformismo" sabe que é por idades e "possibilidades", mas em Portugal para sobreviver o inconformismo é tornado em "associativismo".

Quanto ao resto, granjeou um leitor e a simpatia (ou sarcasmo) agradaram-me.

2/19/2008 2:38 da tarde  
Anonymous JAM said...

Só uma nota ao "amigo Vicissitudes" cujos pertinentes comentários registei com atenção:
por favor não me tome por um "capitão de Abril" pese embora todo o respeito que alguns justamente merecem, nem por um pressuposto iluminado, que não sou.

Concordo 100% consigo quando refere que o "inconformismo" rapidamente resvala para "associativismo" pelas mais diversas causas.
O verdadeiro inconformismo começa em atitudes que tomamos diariamente nas nossas vidas.

Para mim, uma das causas do fracasso do nosso país (concretamente do "Portugal pós-25 de Abril") é que existe muito moralismo mas pouca moral, muito Estado mas pouco sentido de Estado, muita democracia no papel mas poucos verdadeiros democratas.

2/19/2008 3:27 da tarde  
Blogger Vicissitude(s) said...

«..muito Estado mas pouco sentido de Estado..» acho que estamos apresentados e no mesmo barco.

Só uma breve nota, embora se escarneça os "capitães de Abril" não é pessoalizar as coisas, simplesmente não havia "asas" para voar mais alto.

Sim, as verdadeiras atitudes são tomadas diariamente e só se sente a liberdade verdadeira com inconformismo verdadeiro, sem um e outro tal como disse, passamos de "democratas" em papel.

Cumprimentos.

2/19/2008 4:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

JAM,
Concordo inteiramente consigo.
Quer-me parecer que há gente - pouco informada ou pouco estudiosa, ou até sem escrúpulos - que, tendo nascido depois do miserável 25 de Abril de 1974, ou poucos anos antes, apenas tenha tomado consciência de melhorias depois desse nefasto acontecimento.
Quem já era crescidinho nesse então, sabe bem quanto a Abrilada desse maralhal ignorante destruiu a qualidade de vida que o Povo usufruia.
Agora, o que é de facto espantoso é o poder dos media que deu a volta à cabeça a tanta gente - intrudindo o facilitismo -, sendo que muitos, no presente, já tomaram consciência e agora, arrependidos, não sabem como voltar para trás.
Fala-se em País Profundo - que não o blog - mas a verdade é que a maioria não contacta o Povo e não sabe - ou propositadamente omite - o que toda a nossa gente pensa.
Portugal não é só Lisboa e as outras cidades maiorzitas. No interior há milhões a sofrer cada vez mais uma crescente miséria.
Se não fosse uma situação tão triste e angustiante, até seria divertido assistir às enormidades que os abéculas por aí andam têm o descaramento de vomitar exactamente sobre as maiores vítimas desta tragédia.

PS - Ça ne va pas sans dire: eu não sou um defensor do Estado Novo. Porém, a haver mudanças, que eram necessárias, desejar-se-ia que fossem para melhor e não para uma desgraça que cresce a olhos vistos e não se vê maneira de, ao menos, suster, já que tratá-la só será possível com reponsáveis mais sérios e, sobretudo, capazes.
(Com pontinho.)
.

2/20/2008 7:48 da manhã  
Blogger Vicissitude(s) said...

Sou da opinião que o Povo não vivia tempos maravilhosos antes do 25 de Abril. Quanto ao "povo" é muito lato falar do "povo".
Ainda assim é um diagnóstico muito supérfluo. Lembre-se que temos um "passado" não muito abonatório. O 25 de Abril trouxe habitações e melhorias no nível de vida da classe urbana mais baixa, dando habitação a gente SEM educação e sem supervisão. Não quer por isso dizer que as infraestruturas estivessem criadas, foi um pouco como pintar o quadro para o UE. Investimento para as cimenteiras, fundos e mundos da UE e emparedar os desgraçados das barracas sem ter a mínima ideia do que é viver em sociedade ou sem a mínima supervisão. Um pouco como as nossas "províncias Ultramarinas". Quanto ao deslocamento das famílias, pobreza etc e tal é outro ponto sensível e muito extenso, saiba você, que isso infelizmente é a nossa "classe média". Eu chamo classe média enchida a chouriço que vive ou vivia da subsistência nos terrenos dados pelo Governo no Pós-25 de Abril, trocava alface com o vizinho e ia bater pregos para a fábrica. Formação? nunca, porque já desde os tempos de repressão uma classe sub-urbana grasna contra o Governo. Advém daí a nossa estagnação, nunca sairam disso, sem formação, ou emigram ou ficam na miséria. Assacar responsabilidades é normal, e por óbvio que o "Governo" como Governo ou o Estado é responsável, afinal são eles mesmo que dão o exemplo e nos "lideram".

Quero eu dizer com este bláblá que nunca passámos de uma Sociedade Recolectora a Sociedade Agrícola. Quisemos assumir logo uma sociedade "moderna" sem estrutura ou piso para isso.


Morte à classe média e que se crie uma nova classe média que defenda os seus direitos como os Ingleses e Franceses na Bastilha.

2/20/2008 9:17 da manhã  
Blogger Vicissitude(s) said...

Uma rectificação importante - "..nunca, porque já desde os tempos de repressão uma classe sub-urbana QUE grasnasse pelos seus direitos contra o Governo nunca foi um plano do Oliveira, assim mantinha a burrice ao de cima com mão de obra leiga e pouco profissionalizada"

2/20/2008 9:23 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Vicissitude(s) disse... 2/20/2008 9:17 AM

Quer-me parecer que a sua resposta não foi dirigida ao meu comentário.
Se foi, acho que você se deverá informar melhor.
(Com pontinho.)
.

2/21/2008 6:30 da manhã  

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