sábado, fevereiro 09, 2008

Mais do que uma pessoa, um movimento


Os analistas pelo mundo fora maravilham-se com o fenómeno de popularidade que é Barack Obama, a grande revelação do actual ciclo eleitoral nos EUA.
Todos lhe reconhecem um enorme carisma e uma grande capacidade de despertar paixões nos seus já lendários discursos mas os críticos apontam-lhe a inexperiência e a ausência de um pensamento conhecido relativamente a uma série de questões importantes.
É apontado como o «candidato da mudança» mas ninguém sabe muito bem mudança para quê.
Pois, o que vou tentar argumentar neste post é que as características pessoais deste candidato não são verdadeiramente importantes, pois um candidato - e este candidato em particular - transcende a personalidade que o corporiza.
É uma característica paradoxal dos actuais sistemas políticos ocidentais a personalização dos movimentos políticos na figura do seu líder.
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Nos EUA, com o seu regime presidencialista, essa personalização sempre foi assumida. Quem é eleito, quem assume o poder executivo, é um homem, é uma face que todos identificam e reconhecem.
Na Europa, a intenção foi outra. Dado que os regimes personalizados descambam mais facilmente no despotismo (basta ver que quase todos os regimes africanos são presidencialistas e os grandes regimes despóticos emergiram de regimes presidencialistas), sendo os EUA a grande excepção que confirma a regra, os constitucionalistas europeus optaram, de um modo geral, por regimes parlamentares, em que o poder reside nos partidos políticos e não numa figura individual.
No entanto, a pressão das campanhas mediáticas fez com que mesmo nos regimes parlamentares, acabasse por emergir a personalização da política, com as eleições a focarem-se na figura do líder partidário, relegando para segundo plano a equipa que lhe está por trás.
Assim, hoje nas eleições, as pessoas optam entre um José Sócrates, um Luís Filipe Menezes, um Paulo Portas... até mesmo na esquerda, as figuras de Francisco Louçã e de Jerónimo de Sousa acabam por emergir acima dos próprios movimentos que dirigem. Lá fora, a tendência é a mesma, com nomes como Tony Blair, Gordon Brown, Berlusconi, Zapatero, Aznar, Merkl, a subirem acima dos seus respectivos partidos no reconhecimento público.
A característica é paradoxal porque, num mundo complexo como o nosso, é cada vez mais irrelevante a figura do líder para o desempenho geral do sistema. Se um ditador provinciano como Salazar podia manter um controlo personalizado sobre cada alavanca do poder, conhecendo pessoalmente cada dossier, cada obra pública, cada regedor, cada diplomata, porque o estado era muito mais simples do que hoje, hoje a complexidade do sistema de governo faz com que a distância entre o líder e cada decisão seja cada vez maior.
O aparelho administrativo dos países ocidentais cresceu a um ponto que nenhuma pessoa isolada o pode controlar ou sequer compreender. Um primeiro-ministro pode arcar com a responsabilidade política de um atendimento na urgência que correu mal e que resultou na morte de uma criança mas não podia seguramente fazer nada para impedir a ocorrência desse caso particular. A responsabilidade existe e é de toda uma equipa que ele dirige. No entanto, essa equipa tornou-se de tal forma complexa, com ministros, secretários de estado, directores-gerais, chefes de divisão, muitos dos quais não são sequer da sua cor política, que não é possível encontrar responsabilidades individuais seja pelos méritos seja pelos deméritos do sistema. O que acontece ou deixa de acontecer deve-se a uma vasta equipa que, em última análise, integra toda a população de um país e a sua determinação em vencer os problemas.
O líder é uma referência, é uma inspiração da equipa, é a bandeira que todos seguem. Mas não são as suas capacidades individuais de decisão que vão ditar o sucesso ou insucesso da grande maioria das políticas. Com todos os entraves de ordem política, fiscal, monetária, comunitária, a margem de manobra dos actuais líderes é, na realidade, muito reduzida. As decisões que tomam são ditadas por um importante grupo de conselheiros e são transmitidas para o terreno por uma longa correia de transmissão de pessoas mais ou menos competentes.
Assim, o sucesso ou o insucesso de um determinado dirigente político depende mais do carisma e da inspiração que transmite ao seu povo do que propriamente da sua competência administrativa. Ronald Reagan era frequentemente tido como bronco, como pouco conhecedor dos dossiers, a sua mulher aconselhava-se com astrólogos, numa reunião com Gorbachev propôs-lhe um plano comum de defesa de uma invasão extraterrestre. Ninguém que o conhecesse apostaria nele como um grande gestor da causa pública. No entanto, foi um dos líderes que, para melhor ou para pior, mais condicionou a política norte-americana e internacional na segunda metade do Século XX. Foi um líder com tão grande impacto porque soube corporizar um sentimento de frustração difuso que existia no seu país, depois dos vexames do Vietname e da tomada de reféns em Teerão. Como presidente, não inventou nada. Até mesmo as suas políticas económicas - que não eram dele, mas da equipa dele - se revelaram desastrosas, acumulando défice atrás de défice e perdendo competitividade económica. No entanto, motivou o país. Levou o país a acreditar nele mesmo e repôs a confiança de cidadãos, militares e agentes económicos. Soube explorar bem um filão que já ali existia. Não foi ele que o criou, foi ele que lhe deu a imagem exterior.
Antes dele, Kennedy tinha sido a última grande fonte de inspiração dos EUA. Liderou o movimento da Nova Fronteira, que se traduziu em mudanças como a Marcha dos Direitos Civis, a mudança de mentalidades dos Anos 60, a intransigência face à Rússia e toda uma série de factos históricos que associamos com a herança de Kennedy. No entanto, também Kennedy se limitou a dar corpo a um movimento que já se preparava para explodir. As mudanças que ele liderou teriam acontecido de uma forma ou de outra. Estavam maduras para desabrochar e foram consequência de muitos outros condicionalismos históricos. Mas Kennedy soube inspirar essa vontade latente e dar-lhe um rosto. Pôs as pessoas a andar num sentido comum. Não há provas de que fosse um decisor mais dotado do que o seu adversário Nixon. No entanto, soube inspirar as pessoas que lhe deram o voto e levá-las a conseguir coisas que nem elas próprias sabiam que conseguiam.
Algo de muito semelhante se passa com Barack Obama. Não se sabe quais são as suas competências como gestor, não se conhece o seu pensamento relativamente a uma série de assuntos mas, francamente, nem isso interessa. O povo norte-americano atravessa a pior crise de confiança nas instituições desde os anos 70 e a Guerra do Vietname. Foi enganado e gerido por uma turba de incompetentes que só procuraram defender os interesses particulares de uma clique de milionários do petróleo.
A Mobil-Exxon acabou de apresentar o maior lucro de uma empresa em toda a história, num cenário em que se fala de «crise energética». O Iraque foi invadido em busca de armas de destruição maciça que não existiam porque as sanções - ditas ineficazes - tinham efectivamente retirado esse poder a Saddam Hussein. O Afeganistão, onde de facto, existiu uma ameaça à segurança dos EUA, foi abandonado (tirou-se os olhos da bola, como agora se diz) para ir perseguir uma aventura petrolífera no Iraque. O orçamento de estado, que chegou a ter um superávite, bateu todos os recordes históricos de défice. O leque salarial disparou, com diferenças inéditas entre os supermilionários e os que não têm dinheiro para ir a um médico.
Todo esse sentimento de frustração foi sendo destilado e canalizado ao longo de 8 anos, gerando uma vontade irreprimível de mudança. Por um acaso histórico, Barack Obama viu-se a encabeçar essa mudança, pelo facto de em 2003 ter sido o único a gritar que o Rei ia nu. Terá, porventura, tanto mérito como a criança inocente que não viu as roupas do rei e se limitou a dizer o que todos pensavam mas calavam, do alto da sua inocência. Mas, por um fenómeno de dinâmica de massas, foi identificado como a cabeça dessa revolta colectiva.
Por isso, para mim, não é importante saber quem é Barack Obama. Ele já é mais do que a pessoa que subiu ao Pódio da Convenção Democrata para denunciar a invasão do Iraque. Ele é a corporização da vontade de mudar de milhões de pessoas. Se ele for eleito, esses milhões de pessoas sentir-se-ão inspiradas para mudar o que está mal e dar origem a mais um grande progresso social. Tanto faz o que é que Obama pensa de uma série de dossiers. No final, as decisões serão tomadas por uma vastíssima equipa e, em última análise, pelos norte-americanos no seu dia-a-dia. O que interessará será o fenómeno colectivo de centenas de milhões de pessoas a decidirem que está na altura de mudar e que acreditam, em conjunto, que podem fazer alguma coisa por isso.
Com a mediatização actual, esse fenómeno irá transcender as fronteiras dos EUA. Se tudo correr bem, esse fenómeno de inspiração colectiva transbordará para o resto do mundo e poderá dar origem a uma nova forma de fazer política. Apesar do que os cínicos possam dizer, estamos melhor hoje do que estávamos há 50 anos. O mundo tem vindo a mudar e a tornar-se mais humano. Essas mudanças ocorrem ao sabor de inspirações como a que agora começa a emergir.
Por isso, também eu sou por Obama.

5 Comments:

Anonymous rpa said...

Três notas rápidas:
1 - Fenómenos de inspiração colectiva já tivemos os suficientes e com os resultados que se conhecem. Não precisamos de mais.
2 - Essa inevitabilidade que resulta de milhões de pessoas e esse menosprezo pelo papel e pela capacidade de quem nos governa não fazem sentido. Basta olhar para Portugal desde o 25 de Abril. O provinciano Salazar fazia opções concretas, certas ou erradas. Os governantes pós-25 de Abril, com a excepção de Cavaco, têm limitado a sua actuação á gestão de expectativas e não fazem as opções necessárias, sejam elas certas ou erradas. É essa falta de coragem política que explica porque é que nos atrasamos em relação aos outros europeus ou aos países da OCDE.
3 - Essa da política económica desastrosa do Reagan é engraçada. Em que manual é que está escrito que ter déficits é má política económica? Se os EUA tiveram uma década de grande crescimento económico nos 90's foi graças às reformas de Reagan.

2/10/2008 12:34 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Pois.
.

2/10/2008 6:38 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

a hilária deixou de estar hilariante

2/11/2008 9:12 da manhã  
Anonymous JAM said...

Excelente artigo!
Para bem do mundo (arrisco mesmo dizer da Humanidade) também espero que Obama ganhe ao "establishment" americano.
Não que estejamos a falar de uma mudança radical mas sim de um abanão da consciência de um Estado que, quer queiramos ou não, é o maior garante do equilíbrio mundial. O novo bloco geoestratégico euro-asiático (China, Rússia, Irão?) levantará graves problemas de segurança ao tão "abençoado mundo global" - que mais é do que uma extensão territorial das sedes de grandes empresas transnacionais (quais os reais resultados de empresas como a Gazprom e a PetroChina? Talvez ultrapassem os da Exxon...).
O "factor O" pode trazer os EUA de volta para a discussão dos grandes problemas do mundo, resolvendo o aglomerar de injustiças internas que a Não-Administração Bush criou nos últimos anos.
Tenho alguma esperança que Obama consiga fazer renascer algum romantismo na vida política mundial pela sua capacidade de união dos descontentes e mobilização do eleitorado mais jovem dado que considero que os povos ocidentais estão completamente cristalizados pela desinformação dos media (muito concretamente pela televisão) e descrentes da capacidade efectiva de liderança dos seus protagonistas políticos. O (bom) sentimento patriótico ou regionalista, o espírito de missão da "coisa pública" está rendido/vendido a interesses particulares (quase ocultos). Hoje Tudo se resume à grande economia...
Acreditemos portanto que a mudança comecerá nos EUA por um afro-americano de humildes raízes no Quénia.

2/11/2008 2:04 da tarde  
Anonymous jam said...

Acescento um link (com a devida vénia para o autor):
http://paramimtantofaz.blogspot.com/2008/02/sim-ainda-pode.html

Há, realmente, qualquer coisa de diferente à volta do "movimento Obama"...

2/12/2008 11:07 da tarde  

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