terça-feira, fevereiro 19, 2008

Kosovo diz não a uma política externa comum na UE

Rapto da Europa (18)

A independência do Kosovo, anunciada no Domingo mas ainda não reconhecida formalmente, é a prova provada de que uma política externa comum na União Europeia vai contra os interesses dos povos não sendo, por isso, desejável a sua concretização.
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O Kosovo declarou unilateralmente a sua independência. A Sérvia, país onde o território se encontra integrado, declarou logo de seguida que não a aceitaria. Conta com o apoio da Russia, que quer manter a capacidade de influência estratégica pelo menos junto das suas fronteiras. E conta também com o apoio de meia dezena de países da União Europeia, entre os quais a nossa vizinha Espanha.

Esta bizarra aliança de ocasião traz três ensinamentos que não devemos desaproveitar. O primeiro é que as relações internacionais continuam a ser dominadas pelo interesse próprio de cada Estado. Contrariando as utopias que por aí se anunciam, os países mantém a sua soberania, com os limites referentes á soberania dos outros, e manifestam a sua vontade consoante os interesses dos seus povos. A independência do Kosovo contraria as resoluções das Nações Unidas, mas isso só reforça a prova de que o sistema de relações internacionais não mudou tanto como por vezes se diz. E ainda bem que assim é porque afasta, pelo menos temporariamente, os perigos da imposição de mais uma visão internacionalista.

A segunda lição é que comprova o quão desnecessário e prejudicial seria a implementação, na União Europeia, de uma política externa comum que viesse calar os povos soberanos. Espanha recusa reconhecer a independência do Kosovo porque receia que os povos que alberga se lembrem de tomar uma atitude semelhante e declarar unilateralmente que “cortam” com Castela, O exemplo mais óbvio é o País Basco, mas também a Catalunha, a Galiza ou as Baleares o poderiam fazer. Se já existisse uma política externa comum na União Europeia, os espanhois teriam que se calar e aceitar o que lhes era imposto.

Até pode ser que daqui algum tempo não tenham alternativa a resignar-se perante o facto consumado da independência do Kosovo. Mas ainda são livres para sinalizarem a sua oposição a qualquer tentativa de independência na Península Ibérica.

A terceira e última lição é que o desacordo entre os países europeus não impede uma acção comum a favor da estabilidade naquela região e da eventual integração daqueles Estados na UE. Ou seja, é mais uma prova de que uma política externa comum não serve para nada a não ser no âmbito de um estado federal europeu e este é muito menos desejável do que o Kosovo. Este facto expõe ainda mais a fraqueza dos argumentos a favor daquela política.

Também apresentado em http://www.demoliberal.com.pt/noticias.php?noticia=6680

7 Comments:

Blogger José Luís Malaquias said...

O raciocínio do Ricardo sofre de uma contradição flagrante!
Defende o direito de o povo espanhol (se é que isso existe) manter a sua soberania perante o poder europeu. Mas, logo de seguida, defende que a vontade e a soberania do povo do País Basco e da Catalunha se subjuguem ao poder central de Madrid.
Vamos ao menos ser coerentes. Se vamos defender a soberania a auto-determinação dos povos face ao poder centralizado, vamos fazer isso em todos os casos.
Venha daí o referendo pela independência da Catalunha.

2/19/2008 12:14 da tarde  
Blogger RICARDO PINHEIRO ALVES said...

Zé Luís,

Ou eu me exprimi mal ou não percebeste o texto. Espanha está representada como unificada na UE e faz da política oficial do seu Governo manter a unidade do território. Não é um só povo como sabes, mas é neste âmbito que Espanha actua nas questões inetrnacionais.

Outra coisa são as questões internas de Espanha. Venham os referendos na Galiza ou na Catalunha ou em outro lado qualquer, que eu serei o primeiro a apoiá-los. Nunca defendi uma Espanha centralizada pois, históricamente, foi sempre nessas ocasiões que a independência de Portugal esteve em perigo. A divisão de Espanha é o que nós queremos.

O que estás a tentar é aproveitar uma generalização abusiva que fiz no primeiro parágrafo, ao considerar os povos da Europa como representados na UE, o que não é real pois alguns povos não se sentem representados, para tentar descridibilizar o argumento principal do texto, a evidente utopia de implementar uma política externa comum da Europa, que não rebates nem sequer referes.

2/19/2008 1:13 da tarde  
Blogger José Luís Malaquias said...

Ainda bem que estamos de acordo quanto a esse ponto.
Mas, no final, então a política externa de Madrid tem tanta credibilidade como a política externa da União Europeia, uma vez que os povos que nela são representados não se revêm nessa política externa. Portanto, não estamos a falar apenas do "rapto da Europa". Estamos também a falar do "rapto da Espanha", do rapto do Reino Unido, da Roménia, etc.
Finalmente, quanto à pertinência de uma política externa comum. Eu não tenho dúvidas de que uma política externa portuguesa autónoma defende com mais proximidade os interesses portugueses. Só tem um defeito. É perfeitamente irrelevantes. Se já são hoje irrelevantes as políticas externas de potentados como a Alemanha ou a França, face ao concerto das grandes superpotências, a política externa de países como Portugal ou a Bélgica é perfeitamente risível e irrelevante.
Por isso, eu prefiro uma política europeia que só siga os interesses de Portugal em 60% mas que tenha um verdadeiro peso internacional do que uma política que defenda a 100% os interesses de Portugal mas que não apareça nos serviços noticiosos internacionais nem como nota de rodapé.
E esse é todo o fundamento do edifício europeu. Nunca poderemos estar todos de acordo em tudo. Mas, juntos, teremos força para defender interesses que, não satisfazendo a 100% todos os intervenientes, estão muito mais próximos dos nossos interesses do que aqueles veiculados por uma China, uma Rússia ou uns Estados Unidos.

2/19/2008 2:08 da tarde  
Anonymous rpa said...

A questão é que é falso que uma política externa comum dê mais voz a Portugal. Como aliás demonstra o meu texto. Portugal pode concertar posições no âmbito da UE sem perder a sua voz autónoma. Fica com o melhor dos dois mundos, os 60% através da UE e os 40% da sua posição soberana. Para isso baste haver coordenação quando ela é necessária e desejável. Não é preciso ficarmos calados.

2/19/2008 2:17 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Qual é a voz que se pretende que Portugal tenha?

2/20/2008 8:02 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

É engraçado. Não posso publicar um comentário...

hehehehe

2/20/2008 8:04 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

RPA,
Não há grande pachorra para seguir isto.
Qual é a importância que a declaração de independência do Kosovo tem para Portugal?
Espanha é Espanha. Se tem problemas internos tem que os resolver.
Nós, aqui, estamos em Portugal com um Povo que sofre agonias por estar depaixo da pata de socialistas (chuchalistas) que nos esmifra.
É com isso que temos de nos preocupar e disso que temos que discutir.
(Com pontinho.)
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2/20/2008 8:07 da manhã  

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