domingo, julho 15, 2007

Direita Portuguesa. E agora?

Constato que o único partido de direita que elegeu vereadores foi o PSD e, ainda assim, apenas 3.
Ainda que, com boa vontade, se considerasse o resultado do PSD agregado ao de Carmona Rodrigues, elegeriam apenas 6 vereadores, o que é pouco mais de um terço. Todos os outros votos estão no PS ou à sua esquerda.
Claramente, umas eleições autárquicas em Lisboa não são eleições nacionais mas existe uma noção difusa de que umas eleições legislativas neste momento teriam um resultado com uma forte correlação com o resultado a que hoje se assistiu. Ou, dito de outra maneira, a direita portuguesa está em muito maus lençóis.
Não posso dizer que essa situação me tire muito o sono, sobretudo atendendo à direita que temos em Portugal.
Mas, apesar de me identificar mais com a esquerda, coloco acima de qualquer valor partidário a defesa da democracia. Por isso e apenas por isso, incomoda-me ver o sistema político português tão desequilibrado. Não tenho a mínima dúvida de que a esquerda governa melhor do que a direita. Mas tenho também a certeza de que a esquerda governa melhor com uma oposição forte do que autisticamente entregue a si própria. Aliás, está à vista. A governação do PS tem vindo claramente a deteriorar-se à medida que o PSD e o CDS se enterram e não lhe fazem uma oposição capaz.
Por isso, vou meter a foice em seara alheia e vou dizer o que me faz espécie na direita portuguesa.
Em toda a Europa, há dois grandes partidos de poder: um filiado na Internacional Socialista, que toma o nome de Partido Socialista, Trabalhista ou Social Democrata e outro alinhado com as Democracias Cristãs, que toma o nome de Partido Democrata Cristão, Conservador ou Popular. Todos os outros partidos, sejam comunistas, trotskistas, fascistas, nacionalistas, liberais, são essencialmente especificidades locais de cada país, não tendo uma grande implantação seja nacional seja europeia.
Em Portugal, por herança do Estado Novo e do ressalto de esquerda que se lhe seguiu, reina uma enorme confusão de designações e ideologias na direita. O principal partido da direita foi buscar a designação à família socialista, chamando-se social democrata. Nunca pertenceu à IS, nunca defendeu políticas verdadeiramente social democratas e é composto maioritariamente por conservadores de direita. O segundo maior partido, de acordo com o seu fundador e líder histórico, queria ser um partido do centro mas, quando deu por si, tinha sido tomado por um eleitorado de direita que não conseguira formar um partido próprio (MIRN, PDC, FN fracassaram todos ou foram simplesmente proibidos). Apesar da confusão se ter mantido no nome de "Centro", acabou por se assumir como o partido do extremo direito do espectro, tendo alinhado com a sua família natural da Democracia Cristã europeia.
Assim, apesar da infelicidade dos nomes escolhidos, tudo se encaminhava para que, com a AD, ambos os partidos se fundissem e acabassem por se assumir como o partido da Democracia Cristã, que alternaria no poder com o Partido Socialista. Porém, a esquizofrenia da direita portuguesa estava lá dentro dos partidos de direita e não tardaria a manifestar-se:
É que, em Portugal, não existe uma direita mas sim duas direitas. Existe a direita dos valores europeus: a que defende a economia de mercado, o sistema capitalista, a liberalização da economia, a integração europeia. Infelizmente, essa direita tem muito pouca expressão em Portugal. É a direita dos empresários (pelo menos aqueles que são competitivos), de alguns quadros superiores e pouco mais. Tem muito pouca expressão eleitoral. Depois há a direita revanchista. A direita que se recusa a aceitar as transformações que o país sofreu nos anos 70. É a direita dos retornados, dos espoliados, dos humilhados pelo PREC, dos católicos que não aceitam a secularização da Europa, daquelas pessoas a quem a mudança rápida de valores assusta por boas e por más razões. Essa é a verdadeira direita que temos em Portugal. É raro vermos a direita portuguesa a reclamar contra a economia protegida que continuamos a ter (contratos de obras públicas para manter os empreiteiros a funcionar, empresas telefónicas que recebem uma rede de mil milhões de euros por cem milhões de euros, concorrências mais do que limitadas, corporativismos escandalosos).
Numa verdadeira economia de mercado, a Ordem dos Médicos e a dos Advogados seriam processadas por cartelização, ao estabelecerem preços mínimos de consultas; as licenças de televisão seriam atribuídas até ser esgotado o espectro radioeléctrico e não garantidas apenas a duas estações, para terem o mercado garantido; o operador incumbente de telecomunicações não teria os estatutos blindados para impedir uma OPA; os empresários não reclamavam medidas para os proteger dos espanhóis. De quando em vez, lá se ouve um economista a falar contra este corporativismo. Mas, a nível político, nem o PSD tem coragem de falar contra os empreiteiros que o financiam nem o CDS de condenar o modelo corporativista do estado novo. Chega-se ao ridículo de ter o Bloco de Esquerda a defender um modelo fiscal semelhante ao dos EUA - o paradigma do capitalismo - contra a resistência dos partidos de direita, que insistem no desacreditado sigilo bancário que lhes protege as suas comodidades e abrigos.
A economia corporativista custa a morrer em Portugal. Esse é o legado mais duradouro que nos deixou Salazar. O horror ao risco e à mudança. A desconfiança de tudo o que vem de fora. Foram todos legados pelo estado novo. Lentamente, vão caindo. É uma morte lenta e agonizante de um modelo económico que outros países enterraram há 50 anos atrás e ainda outros nem passaram por ele.
Mas a direita política tem medo de abandonar essa direita social e de se ver, de repente, sem eleitorado. Por isso, segue a estratégia que o PCP seguiu. O PCP viu os congéneres europeus a reformar-se, na sequência do colapso a leste. Também os viu a desaparecer pouco depois, por terem abandonado o eleitorado histórico e não terem conseguido captar outro. Por isso, o PCP optou pela morte lenta. Agarrou-se aos valores de passado e vai morrendo pouco a pouco, sempre que morre mais um eleitor de toda a vida. É uma rampa de descida lenta, mas sem retorno. A direita política portuguesa sofre o mesmo dilema. Tem medo de abandonar o seu eleitorado de direita tradicional: a direita herdada do estado novo, pois sabe que a direita de estilo europeu tem pouca implantação em Portugal. Sabe que uma mudança dessas acarretaria perigos, possivelmente uma travessia do deserto. Por isso, à semelhança do PCP, opta pela morte lenta e agonizante. Desde o fim da AD que o CDS anda a morrer e não se emenda. Fez uma tímida tentativa parcial com Ribeiro e Castro, mas logo quis voltar ao conforto das pantufas que Paulo Portas lhe oferecia.
O PSD, então, tem terror absoluto de qualquer mudança que o obrigue a ficar longe do poder. Por ser um partido sem matriz ideológica (alguém sabe que modelo social o PSD defende?), só consegue manter militantes pela sedução do poder e das mordomias associadas. Por isso, mudar para um partido de ideias claras que esclarecesse quem lá deve e não deve estar, fica fora de questão. E, enquanto isso, não repara que o PS lhe anda a comer o almoço.
Porque, por paradoxal que seja, quem está a construir a direita de pendor europeu é o PS. Tem sido o PS a desmantelar muitas das regalias do corporativismo. Foi atrás das farmácias. Limitou fortemente o sigilo bancário. Não apoiou a OPA sobre a PT mas também não a proibiu. Privatiza coisas que a direita nunca teve coragem de privatizar. Liberaliza o código do trabalho com requintes que até assustam o insuspeito Bagão Félix. Prepara-se para privatizar até as universidades, dando o primeiro passo da transformação em fundações.
Este PS não destoaria em qualquer reunião do Partido Popular Europeu. Os partidos de direita franceses não sonhariam sequer fazer metade do que ele faz.
Como resultado, vamos ter um PS descomunal que vai ocupar todo o espaço da direita de tipo europeu, mantendo o espaço da social democracia também de tipo europeu. Seria como se a CDU e o SPD alemães se fundissem num só partido. Enquanto isso, à sua esquerda e à sua direita, os partidos vão definhando, com a única excepção do Bloco de Esquerda, que vai ganhando terreno à custa dos deslocamentos do PS para a direita. Continuando esta tendência, daqui por alguns anos, teremos o PS na direita e o Bloco de Esquerda na esquerda e então, só então, teremos um sistema político de tipo europeu mas com a curiosa particularidade de o partido de direita se chamar socialista.

11 Comments:

Anonymous libertas said...

Eis um filme de um homem de esquerda. Quem de Direita vê em Sócrates um conservador?
-Os impostos sobem sem fragor
-Os privilégios do funcionalismo subsistem: ADSE, semana das 35 horas, remunerações generosíssimas, subsídio de desemprego vitalício, tachos e mais tachos nos ministérios e nas câmaras.
-ausência de liberdade de escolha na educação
-ausência de políticas de natalidade

7/16/2007 12:20 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O autor da bosta é um idiota e, pior, ignorante.
O pobre não sabe o que é a Direita.
É uma infelicidade e, o que é mesmo chato, é que este filho da mãe, sabe-se lá, ainda é capaz de convencer uns quantos que andam por aí desprevenidos.
É um péssimo vendedor de peixe podre.


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7/16/2007 7:19 da manhã  
Blogger jorge lima said...

Magistral. E parabéns pelo empenho que demonstras pela liberdade de expressão ao não apagares os comentários mal-educados do anónimo que me antecede.

7/16/2007 8:36 da manhã  
Blogger José Luís Malaquias said...

Meu caro Libertas, vejo que anda muito longe da realidade da função pública. O ADSE está efectivamente em liquidação. Os novos funcionários públicos agora contratados já não têm direito e os outros por pouco mais tempo terão direito. Já agora, sabia que em alguns tratamentos, como a apneia do sono, a Segurança Social paga a 100%, enquanto a ADSE obriga o paciente a pagar 350 euros por mês, dos quais só reembolsa e tarde 80%?
Subsídio de desemprego??? Eu fui 10 anos docente numa universidade pública e, no fim, não tive direito a indemnização de saída e, muito menos, a subsídio de desemprego. Nem uma semana. Os impostos. Que eu saiba não foi decretada nenhuma subida de impostos de rendimento (houve até descidas). O que tem havido é uma maior eficácia na cobrança que, mesmo assim, continua longe de chegar a toda a gente. Se olhar para as taxas efectivas de cobrança, os impostos em Portugal são dos mais baixos da UE.
Tachos? Não são seguramente exclusivo da esquerda. Eu diria que são ideologicamente neutros.

Esconda a cabeça debaixo da terra, se quiser, mas o PS está a comer o almoço da direita. Isso está.

7/16/2007 10:01 da manhã  
Blogger L. Rodrigues said...

Ah bom.

7/16/2007 3:58 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ai tanto disparate...

7/16/2007 10:23 da tarde  
Anonymous libertas said...

«O ADSE está efectivamente em liquidação». Espero pela confirmação da notícia. Eu não posso escolher o meu médico e depois apresentar a conta.

Se um prof universitário precisa de subsídio de desemprego então de que precisarão os outros mortais? De qq modo, é a única actividade na função pública que não tem direito ao subsídio.

«não foi decretada nenhuma subida de impostos» O IVA passou de 19 para 21%. O IA acabou de aumentar este mês. A taxa máxima de IRS passou de 40 para 42%. A dedução específica em IRS dos reformados tem-se reduzido todos os anos.
O IT aumenta todos os anos. Múltiplos medicamentos passaram de IVA de 5% para 21%. O aumento do IMI para casa antigo é sinistro.

Se o PS é de direita eu vou ali e já venho. Outra é dizer que os governos de Durão e Santana eram de Direita. Isto é que seria de loucos...

7/17/2007 12:04 da manhã  
Anonymous libertas said...

Já agora, caríssimo José Luís Malaquias, recorde-me que taxa de imposto desceu.

7/17/2007 12:06 da manhã  
Blogger José Luís Malaquias said...

Estimado Libertas,

De facto, tem havido um aumento dos impostos escondidos, porque o estado está insaciável.
Mas esses impostos recaem essencialmente sobre os trabalhadores.
As empresas ou não pagam impostos porque dão cronicamente prejuízo e ninguém as fecha compulsivamente ou têm mil e um esquemas fiscais para fugir aos impostos legalmente, através de off-shores, regalias especiais e outros incentivos.
A banca, o sector mais florescente da nossa economia, paga uma taxa efectiva de 12%. O IRC baixou drasticamente nos últimos anos e, mesmo assim, a maioria das empresas não o paga.
Ora, um governo que taxa fortemente o trabalho mas fecha os olhos à fuga descarada dos empresários é, para mim, um governo de direita.
Quanto ao subsídio de desemprego, ele não existe de todo na função pública, no pressuposto de que um FP não pode ser despedido. Mas o facto é que pode. Foi necessário criá-lo à pressa apenas para os professores do secundário. De resto, mais ninguém tem na FP. Qualquer trabalhador privado tem direito a isso e a FP não. A CGA está a convergir rapidamente para o sistema geral de aposentações. A ADSE está a ser negada a todos os novos FP. A única coisa que não converge são os salários reais, que estão cada vez mais baixos na FP, onde não existem bónus, subsídios de produtividade, carro da empresa, telemóvel da empresa e as outras mil e uma formas de pagar subrepticiamente ordenados mais altos no sector privado, dando a falsa impressão de que se ganha melhor na FP.

7/17/2007 3:14 da tarde  
Anonymous libertas said...

Só uma observação. Sem empresas não estou a ver como possam subsistir os trabalhadores, mesmo os da função pública: quem pagaria impostos para manter os 700 mil nababos que vivem à margem da economia de mercado?

PS: um governo que tolera a fuga descarada (de empreários ou outros) não é de Direita nem Esquerda mas um governo de bandidos.

7/17/2007 11:16 da tarde  
Blogger José Luís Malaquias said...

Sou o mais possível a favor das empresas, desde que paguem a sua quota parte. Agora, não entendo porque é que um empresário pode pôr para despesas, por exemplo, a gasolina que gasta nas férias e eu, que gasto um terço do ordenado em gasolina para chegar ao trabalho, não posso deduzir um centavo. Esse é um dos milhentos exemplos que lhe posso dar para demonstrar que a política fiscal portuguesa está montada para sacar todo o dinheiro ao alvo fácil que é o trabalhador por conta de outrém, deixando passar em branco os empresários e profissionais liberais.
Estou plenamente de acordo com a sua avaliação dos bandidos que permitem este estado de coisas. Mas não compreendo porque é que só o PCP e o BE defendem medidas que genuinamente combateriam essa fuga e os três partidos da direita as rejeitam sempre liminarmente. Se quiser, continuo com os exemplos.

7/17/2007 11:33 da tarde  

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